segunda-feira, 30 de março de 2026

ARTIVISTA

 Tínhamos acabado de almoçar. A mesa estava ainda ocupada pelos vestígios da refeição e por aquela espécie de lassidão pensativa que, por vezes, sucede às conversas prolongadas. O meu amigo, homem instruído, urbano, confortável nas suas opiniões e nas suas roupas, acendeu um cigarro com a lentidão de quem nunca precisou de calcular o preço exacto do dia seguinte. Ficámos calados uns instantes. Depois, como quem pega num objecto curioso, voltou-se para mim e disse:

— Continuas então nessa tua ideia de ser artivista?

Olhei para ele sem pressa.

— Continuo.

Sorriu.

— É curioso. Porque, vendo-te de fora, não se diria. Trabalhas com câmaras municipais, com festivais, com eventos, com turismo, com contratos. Fazes da rua palco, do espanto ofício, do corpo imagem. Não pareces propriamente um revolucionário. Pareces-me, quando muito, um profissional muito inventivo da sobrevivência.

— E que pensas tu que é, hoje, um revolucionário? Um homem que escreve frases acesas no telemóvel? Um comentador de raiva bem penteada? Um deputado de indignação administrada? Ou alguém que ainda arrisca o corpo para interromper, por breves instantes, a normalidade da cegueira?

Ele pousou o cigarro no cinzeiro e respondeu-me:

— Não compliques. O que te pergunto é simples. Em que sentido pode um homem que vive da arte pública, da performance e da contratação chamar-se artivista sem cair em contradição?

— No sentido exacto em que um homem pobre pode chamar-se livre sem deixar de ter contas para pagar: num sentido combatido, imperfeito, mas real.

— Isso é frase.

— Não. Frase seria dizer-te que a arte muda o mundo. Eu não digo isso. O mundo é demasiado pesado para ser mudado por uma estátua viva. Por mim. O que eu digo é mais modesto e, por isso mesmo, talvez mais verdadeiro: a arte pode revelar onde o mundo está podre.

Ele levantou ligeiramente as sobrancelhas.

— E tu revelas isso feito estátua?

— Às vezes, sim.

— Parece-me pouco.

— Porque nunca viste a pressa interrompida por um corpo absolutamente imóvel. Nunca viste a inquietação que nasce quando o ruído encontra alguém que não lhe responde. Nunca viste o desconforto de uma multidão perante uma presença que não vende, não sorri, não explica, não serve. A estátua viva, quando é séria, não é um ornamento. É um espelho hostil.

— Hostil?

— Sim. Porque obriga a olhar. E o nosso tempo aceita tudo, menos isso. Aceita sons, slogans, escândalos, demagogia, miséria televisiva, mentira eleitoral, patriotismos de plástico, indignações alugadas. Mas olhar  é que quase ninguém quer.

Ele riu-se discretamente.

— Tu falas da tua arte como um sacerdote fala do altar.

— Talvez porque tu falas da política como um homem que já não espera nada dela.

— E tu esperas?

— Não dela. Das pessoas, ainda.

Fez-se uma pequena pausa. O ar da sala estava já espesso. Lá fora, por detrás da janela, a cidade continuava no seu movimento mecânico, com a sua mistura habitual de motores, cansaços e promessas por cumprir.

— Então diz-me — insistiu ele — que espécie de artivismo é o teu? De que lado estás afinal?

— Do lado de quem não explora.

— Isso é vago.

— Não é. Quero dizer: do lado de quem trabalha e não aparece, de quem paga e não decide, de quem sustenta e não brilha, de quem nasce mal situado e passa a vida inteira a ouvir que a culpa é sua. Do lado dos deserdados, dos mal nascidos, dos que não herdaram nem dinheiro nem linguagem de poder. Do lado dos que o sistema usa como tapete.

— E no entanto — observou ele — esses mesmos, muitas vezes, votam contra si próprios. Seguem demagogos, acreditam em mentiras, repetem slogans absurdos, entregam-se à extrema-direita com uma espécie de fúria ingénua. Como concilias tu essa tua fidelidade aos de baixo com o facto de muitos deles quererem, afinal, o chicote?

— Não querem o chicote. Querem sentido. E como os abandonaram, aceitam o veneno embrulhado em sentido falso.

— Isso parece-me benevolência.

— É lucidez. A extrema-direita não cresce porque o povo se tornou subitamente monstruoso. Cresce porque o abandono produz febres. Durante anos deixaram-se crescer o ressentimento, a humilhação, a exaustão, a sensação de que ninguém fala por quem realmente sustenta o país. E depois apareceu quem dissesse: “a culpa é deles”, “a culpa é dos outros”, “a culpa é de quem te substitui, de quem te invade, de quem te rouba, de quem não és tu”. É mentira, evidentemente. Mas a mentira, quando entra por uma ferida real, instala-se com facilidade.

— E a direita tradicional?

— Fez o que quase sempre faz a cobardia política: primeiro desprezou, depois relativizou, depois imitou. Julgou que podia usar o fogo para aquecer as mãos. Agora faz contas eleitorais com os fósforos. Não percebeu, ou fingiu não perceber, que quando a direita respeitável se cola à demagogia por interesse, deixa de haver direita respeitável e passa a haver apenas uma gradação de oportunismo.

— E a esquerda, já agora?

Suspirei.

— A esquerda teve, e ainda tem, a desculpa nobre de ter querido justiça. Mas demasiadas vezes esqueceu-se que a justiça começa na vida material de quem sofre. Foi-se sofisticando, subdividindo, teorizarando, moralizando, discursando — e, enquanto isso, muitos trabalhadores, muitos precários, muitos velhos, muitos pobres, muitas vidas esmagadas pela rendas, pelo preços, pelo impostos, pela humilhação silenciosa, deixaram de se sentir vistos. A esquerda quis, por vezes, salvar o mundo sem acompanhar o homem concreto ao centro de saúde, à fábrica, ao fim do mês, à exaustão.

— Estás a ser duro.

— Estou a ser justo. Um homem que fala em povo e não suporta o cheiro do povo está perdido. Um homem que defende os trabalhadores mas já não sabe o que é um corpo cansado está perdido. Um homem que usa os pobres como categoria mas não os reconhece como vizinhos está perdido.

Ele olhou demoradamente para o fundo do copo.

— E tu não estás perdido?

— Estou, como toda a gente está. Mas sei de onde falo. E isso faz diferença.

— Diz-me então de onde falas.

Inclinei-me um pouco para a frente.

— Falo de baixo. Falo de uma existência em que a arte não foi capricho, foi saída. Falo de uma vida em que o corpo não foi apenas expressão: foi ferramenta, disciplina, resistência, mercado, risco e sustento. Falo de uma condição em que o talento, sem estrutura, vale pouco; e a vocação, sem dinheiro, aprende cedo o preço do mundo. Falo de alguém que conheceu a rua não como metáfora mas como meio. Que percebeu, muito cedo, que há homens nascidos para mandar sem mérito e outros condenados a justificar até a própria dignidade. Que viu, em dezenas de países, que o luxo fala sempre a mesma língua e a pobreza também. Que descobriu que o cosmopolitismo dos pobres é mais verdadeiro que o dos ricos: os ricos viajam por conforto; os pobres viajam por necessidade, por trabalho, por fuga, por sobrevivência, por invenção.

Ele manteve-se calado. Continuei:

— Por isso, quando me ouço chamar artivista, não penso em bandeiras. Penso em não separar aquilo que em mim nunca esteve separado: a arte, a injustiça, o corpo, a fome, a visão, a rua, a política, o silêncio, o trabalho. O meu activismo não nasceu dos livros; os livros vieram depois. Nasceu da intuição de que a dignidade não pode ser decorativa. Nasceu da recusa em aceitar que o artista sirva apenas para entreter os vencedores.

— Mas entreténs.

— Às vezes. Tal como a verdade, por vezes, entra mascarada para não ser impedida à porta.

— E qual é então a tua política?

— Simples. Proteger o essencial e taxar o excesso. Desagravar o trabalho e taxar o luxo obsceno. Tornar leve o que é necessidade e pesado o que é arrogância. Água zero por cento. Jacto particular 90 por cento. Casa antes de especulação. Corpo antes de lucro. Produção real antes de circulação abstracta de dinheiro. Dignidade antes de estatística.

— Isso não é poesia. É programa.

— Melhor ainda. A poesia, quando é séria, aproxima-se sempre de um programa moral. E um programa moral, quando é verdadeiro, tem de saber falar como poesia para não morrer nas mãos dos técnicos.

Ele sorriu.

— Falas como quem já pensou demais.

— Penso porque tive de viver demais em circunstâncias que obrigam a pensar. O conforto simplifica. A necessidade complica. Quem nasceu no aperto ou enlouquece ou ganha lucidez. Às vezes ambas.

— E acreditas ainda em transformação?

— Acredito em deslocamentos. Transformação é palavra grande demais para uma só vida. Mas um homem pode deslocar o olhar de outro homem. Pode interromper-lhe a anestesia. Pode lembrá-lo, ainda que por segundos, de que não nasceu apenas para consumir, obedecer, repetir, votar com medo e morrer cansado. Pode sugerir-lhe que o silêncio existe. Que o corpo existe. Que a dignidade existe. Que o sistema não é natureza. Que o dinheiro não é Deus. Que a velocidade não é destino.

— Isso é muito para uma performance de rua.

— Não é mais do que se pede a um sermão, a um editorial, a um comício ou a um telejornal. A diferença é que eu, ao contrário desses, ponho o corpo inteiro no argumento.

Ele não respondeu logo. Levantou-se, foi até à janela, voltou.

— Sabes que mais? — disse. — Tu fazes-me pensar numa espécie de anarquista sem bomba.

— Antes assim. As bombas, hoje, são outras.

— Quais?

— A mentira repetida até parecer povo. A demagogia travestida de coragem. O cinismo fiscal que esmaga o trabalho e acarinha o excesso. A política reduzida a gestão de medos. A arte domesticada para ornamentar o desastre. Essas são as bombas modernas. Rebentam devagar, mas deixam ruínas mais duradouras.

— E tu, o que fazes contra elas?

— O que posso. À minha escala. Com o que tenho. Sem purezas ridículas e sem submissões fáceis. Faço imagens com o corpo. Faço silêncio no centro do ruído. Faço presença numa época de simulacros. Faço da resistência uma forma. Faço da quietude um argumento. Faço da minha origem pobre, não um ressentimento, mas um ponto de verdade, um ponto de partida.

Ele estendeu a mão para o maço do tabaco, hesitou, não tirou nenhum.

— Então, no fundo, continuas a acreditar na liberdade.

— Não. Continuo a merecê-la.

E levantámo-nos da mesa.

política

 Se hoje olharmos para a política portuguesa com um mínimo de lucidez, e até para muita da política mundial, veremos que o problema já não é apenas de regimes ou de ideologias, mas de desvio — um desvio profundo entre o país real e o país representado. À superfície, tudo parece movimento: debates, escândalos, discursos inflamados, promessas de mudança. No fundo, porém, há uma estranha estagnação, como se a energia que circula fosse apenas ruído, incapaz de produzir verdadeira transformação.

A recente subida da extrema-direita não nasceu do nada, nem é um acidente. Alimenta-se de um terreno preparado durante anos: desconfiança, abandono, ressentimento. Mas cresce, sobretudo, porque encontrou um instrumento eficaz — a simplificação brutal da realidade. Fake news, slogans fáceis, inimigos inventados ou ampliados. Não importa a verdade; importa a eficácia emocional. E quando a política passa a ser conduzida pela emoção mais primária, deixa de construir e passa apenas a explorar.
O mais inquietante, porém, não é a existência dessa força, mas a forma como a direita tradicional, em vez de a enfrentar com clareza e responsabilidade, a ela se cola, por cálculo, por medo de perder espaço, por ambição de poder. Ao fazê-lo, não só legitima aquilo que antes deveria combater, como abdica de qualquer posição estruturante. Deixa de haver direita — passa a haver uma gradação de oportunismos.
Do outro lado, a esquerda, que historicamente se afirmou como voz dos que não tinham voz, parece ter perdido contacto com aqueles que mais dela precisam. Ocupa-se de discursos, de causas fragmentadas, de debates internos, enquanto muitos dos deserdados, dos mal nascidos, dos trabalhadores que sustentam o país, deixaram de se sentir representados. Não porque tenham deixado de precisar, mas porque deixaram de ser ouvidos.
E assim se cria o vazio. Um vazio perigoso, onde quem grita mais alto substitui quem pensa melhor, onde quem acusa vence quem trabalha, onde a política deixa de ser um espaço de construção colectiva para se tornar um campo de manipulação.
Mas há um ponto ainda mais fundo, raramente dito com clareza: a injustiça estrutural sobre o trabalho. Taxa-se quem produz, quem sua, quem constrói — e alivia-se quem acumula, quem especula, quem consome luxo como se fosse necessidade. É aqui que a política revela, sem máscaras, a sua inversão moral.
Uma sociedade equilibrada faria o contrário. Taxaria em função da necessidade. Tornaria o essencial acessível e o supérfluo dispendioso. Água a zero por cento, jacto particular a 99%. Trabalho digno protegido, não esmagado. Todo o luxo extremo, o excesso inútil —a suportar o peso que lhe corresponde, não simbólico, mas real. Não por inveja, mas por justiça.
Sem esta inversão, tudo o resto são cócegas. Porque enquanto o trabalho for penalizado e o excesso premiado, não há discurso político que corrija o desequilíbrio, não há lados da bancada que desejem justiça.
O problema, portanto, não está apenas na ascensão de um lado ou na queda de outro. Está na ruptura de equilíbrio. Numa sociedade onde as forças que deveriam corrigir e equilibrar se afastam da sua função, o resultado não pode ser outro senão o agravamento da própria decadência.
E, no entanto, a solução não virá de mais ruído. Não virá de mais promessas vazias, nem de mais guerras de palavras. Virá, se vier, de um reencontro com a realidade — com as pessoas concretas, com as vidas que não cabem em discursos, com o país que existe para além das narrativas, dos programas eleitorais e das ambições de poder.
Porque enquanto a política não fizer com que a justiça volte a estar ao lado de quem trabalha, de quem luta, de quem resiste em silêncio, continuará a ser apenas isso: uma brincadeira de mau gosto. E nas brincadeiras de mau gosto, como sabemos, a verdade que fica é apenas o dano que o mau gosto causou.
Criar danos não é governar. É apenas disputar o poder sobre o vazio, sobre a dor de cada explorado, de cada manipulado, de cada trabalhador.


sábado, 16 de março de 2024

pressão e depressão

 

Certo dia, estando em trabalho num festival em Dublin, Irlanda, e devido à minha mania de nunca falhar nenhum horário, nenhum compromisso, dei cabo dos nervos a um dos meus condutores, que não me aguentando mais, me disse, Pressure only on the tyres!!! Isto é, pressão só nos pneus! Aprendi ali uma boa lição! Realmente estarmos sempre a pressionar alguém, pouco ou nada resolve ou pode até piorar. Muita pressão pode dar estoiro do pneu e se for numa pessoa pode dar depressão. É sobre esse estado de doença que vou hoje aqui escrever.

Não sendo um mortal cancro, nem uma perna partida e nem sequer uma tosse persistente, a depressão é uma doença terrível, ocupando o segundo lugar das doenças incapacitantes. É uma maleita muitas vezes invisível, muitas vezes escondida, muitas vezes acabando em suicídios aparentemente inesperados. Na depressão escondemo- nos dos outros. Do mal só sabemos ir para o pior. Dentro dela entramos em rodopio galopante de aflição interior. Esse rodopio gera-nos uma ansiedade em circuito fechado que nos vai dilacerando a alma e mortificando o corpo.

Não sou dos poucos que a conhecem pessoalmente, dado que 3 em cada 10 portugueses já foram com ela diagnosticados e 6 em cada 10, já viram os seus sinais em algum momento da sua vida. Entre 30% e 60% dos portugueses sabem do que estou a falar, sinceramente espero que não seja o teu caso.

Na depressão não há amor, nem pelos outros, nem por nós próprios. Na depressão desamamo-nos.
Mesmo no meio de qualquer festa, onde reina a alegria e a felicidade, a depressão é um

vampiro que se alimenta das entranhas mais escuras da alma humana. É mais uma daquelas doenças que não escolhe idade, género ou estatuto social; ela pode invadir a qualquer pessoa, deixando marcas bem profundas na vida de cada doente.
Quando damos por ela, estamos num turbilhão de tristeza e desespero. Cada dia é um tormento, cada simples acção se transforma num obstáculo intransponível. Conseguir levantar da cama já é uma enorme vitória, quando o peso do universo esmaga cada ideia do nosso pensamento. A apatia controla todos os caminhos da nossa esperança.

Fora de nós tudo é distante e irreal, enquanto do lado de dentro continua a escuridão mais profunda. Nem memórias guardamos de qualquer alegria passada. Presente, passado e futuro são um tempo sem fim, onde todas as medidas medem a dor que nem gritar consegue. Uma dor escondida, muitas vezes só mostrada por um corpo pendurado numa corda, no fundo do poço, estilhaçado por um comboio, espumando veneno pela boca e outras tantas formas de suicídio.

Portugal ocupa o segundo lugar na OCDE no consumo de anti-depressivos, gastando o estado cerca de 60 milhões de euros por ano. Não sendo de desprezar o tratamento médico farmaceutico, julgo essencial mais atenção nas causas da depressão, sendo a mais evidente, a pobreza. É um lugar comum dizer-se que a depressão é uma doença de ricos. Que grande mentira esta, no máximo se pode afirmar que é uma doença de pobres em países ricos.

defeitos e feitios

 Na caminhada da vida, cada um de nós existe numa dualidade dinâmica entre o defeito, representado pelas nossas fraquezas e adversidades, e o feitio, personificado pela nossa essência e personalidade. Nesta crónica, navegaremos pelas águas turbulentas dos defeitos e nos deleitaremos nas brisas suaves dos feitios, explorando como esses elementos se entrelaçam para moldar quem somos.

Comecemos pelo defeito - uma palavra que muitas vezes evoca imagens de imperfeição e falha. No contexto da saúde, um defeito pode ser uma doença física ou mental, lançando sombras sobre  as nossas vidas e testando a nossa resiliência. A doença não escolhe idade, raça ou classe social; ela pode-se infiltrar silenciosamente, ou  manifestar-se abruptamente, como uma tempestade furiosa.

Mas, é bom termos em conta que um defeito não define quem somos. Podemos estar doentes e ter bom feitio, ou podemos ser saudáveis e ser uns grandes sacanas. A nossa verdadeira essência reside além das limitações físicas ou mentais que enfrentamos. Em vez de nos resignarmos ao papel de vítimas indefesas, podemos transformar os nossos defeitos em oportunidades de crescimento e superação.

Ao lado sombrio do defeito, brilha o feitio - a manifestação mais pura e autêntica da nossa personalidade. As nossas características únicas, os nossos traços de carácter e as nossas peculiaridades, são os ingredientes que compõem o tecido da nossa identidade. É através do feitio que expressamos a nossa individualidade e deixamos a nossa marca única no mundo.

Assim como o defeito pode ser uma fonte de desafio, o feitio também nos pode trazer dificuldades. Nossos traços de personalidade podem nos levar a comportamentos autodestrutivos ou a relacionamentos tumultuosos. Um temperamento impulsivo, por exemplo, pode  colocar-nos em situações perigosas, enquanto uma tendência à timidez pode impedir-nos de alcançar o nosso pleno potencial.

No entanto, é importante reconhecer que os nossos feitios não são inerentemente bons ou maus; eles apenas são. Cada aspecto de nossa personalidade tem o seu lugar e propósito, contribuindo para a complexidade e riqueza de quem somos. Em vez de julgar os nossos feitios como positivos ou negativos, podemos aprender a abraçá-los com aceitação e compaixão, reconhecendo que fazem parte do que nos torna humanos.

À medida que vamos vivendo, encontramos momentos de luz e escuridão, de alegria e tristeza, de triunfo e fracasso. Em cada reviravolta do caminho, somos desafiados a abraçar tanto  os nossos defeitos quanto os nossos feitios, reconhecendo que ambos são partes inseparáveis ​​da experiência humana. É na interseção entre o defeito e o feitio que encontramos a verdadeira essência da nossa humanidade - uma mistura intricada de imperfeição e beleza, fraqueza e força, vulnerabilidade e coragem.

Devemos evitar e corrigir os defeitos para encontrar  a paz e plenitude no conhecimento de que somos perfeitamente imperfeitos, maravilhosamente complexos e infinitamente preciosos. Com bom ou mau feitio.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Qual o valor da arte?


“Serão as artes algo mais do que uma forma de ganhar a vida? Na minha opinião, sim. As artes tornam a vida mais suportável. Uma arte, por melhor ou pior que seja, é uma mensagem do espírito à matéria. Fazer arte é uma das mais singelas formas da criação. Uma boa definição para Humano, seria aquele que tem a possibilidade de criar arte e apreciar arte. A arte é singularmente humana. 

Mesmo no meio das maiores tormentas, os humanos têm recorrido à arte para procurar conforto e expressar os seus desejos mais íntimos. Nesta maré negra de Covid-19, foram os artistas os primeiros a ficarem sem ganha pão, mas mesmo vivendo esse desespero, nunca deixaram de criar e muito ajudaram os seus semelhantes a não caírem em depressões e ansiedades mais profundas. 

Neste País à beira mar plantado, as artes têm sido gravemente negligenciadas. Por aqui a expressão: és cá um artista! Ainda tem carga depreciativa. As artes não são uma máquina de fazer dinheiro, e aos olhos de muitos pais, nada é pior do que ter os seus filhos a acabar por ser artistas esfomeados. Mas antes artista com fome, do que frustrado simulacro de humano incompleto. Ser esfomeado de ética, de histórias e de tudo o que o mundo tem de belo, é também uma fome com graves consequências. Cada vez mais investigações demonstram que a criação de arte durante 45 minutos produz benefícios imediatos entre os sujeitos de teste sob a forma de níveis reduzidos de cortisol (uma boa medida para a existência de stress em humanos). Numerosos artigos de investigação relacionaram também a escrita expressiva, música e arte com melhorias a longo prazo da saúde, redução das emoções negativas e aumento das emoções positivas, e efeitos terapêuticos na redução do stress e ansiedade entre pacientes com graves problemas de saúde. As artes também são úteis a promover a mudança social. Artistas com muitos seguidores são capazes de instigar a mudança à escala global. Isto é especialmente importante durante períodos de fragilidade e agitação social. A luta contra o racismo, sexismo e homofobia tem sido muito auxiliada por representações positivas das minorias nos meios de comunicação populares, como a escrita criativa, o cinema e a música.

 Os humanos podem não falar todos a mesma língua, mas todos nós compreendemos a linguagem da beleza, da música e da poesia. As artes podem aproximar as comunidades, reduzindo o isolamento e fazendo as pessoas sentirem-se mais seguras. Demonstrou-se que aumentam a empatia para com os outros, reduzindo assim a tensão social e a discriminação. Enfim, qual o valor das artes? Muito mais do que aquele que lhe dão por cá. Outros países há com diferente panorama, certo dia num discurso de inauguração de mais uma sala de teatro/ópera em Linz, Áustria, ouvi da ministra da cultura lá da terra: Todos sabemos que a arte e a cultura ficam caras a um país, mas todos devem saber que sem artes e sem cultura, nenhum país poderá ser rico. E assim uma cidade mais ou menos como Coimbra, ficou com três salas onde até ópera se pode apresentar.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Crise, Sociedade Anónima



 

Quando Proudhon pensou que toda a propriedade é um roubo, muito possivelmente já tinha reparado na Lei de Lavoisier, que nos diz que na Terra nada se cria, nada se ganha, tudo se transforma. Nestes tempos, ditos de crise, aos quais eu prefiro apelidar tempos de gatunagem especializada e de controlo sistematizado, rouba-se aos milhões sem vergonha na cara e muito menos no coração. Quanto maior o roubo, menor o castigo.

Qual crise qual quê? Oportunismos vários, sem ligar ao mal que se faz aos semelhantes ,isso sim. Enquanto houver uns quantos a acumular hiper fortunas, sejam eles gestores, políticos, banqueiros, futebolistas, estrelas de Hollywood, patos bravos, xeques do petróleo, traficantes de drogas, de orgãos ou mesmo de pessoas, negociantes ou gangsters, serão sempre as massas a pagar as consequências. Para uns terem demais, outros terão que ter menos. Tão simples como isto.

O ano passado foi histórico – e não estou a falar sobre a pandemia. O mercado registrou ofertas públicas inesperadas, aumento de criptomoedas e valorização das ações. O número de bilionários na 35a lista da Forbes dos mais ricos do mundo, publicada anualmente, explodiu para um número sem precedentes de 2.755 pessoas, 660 a mais do que em 2020. Ao todo, as fortunas consolidadas chegam a 13,1 triliões de dólares, valor bem acima dos 8 triliões da lista de 2020. A pandemia foi portanto ferramenta útil para o crescimento da riqueza dos mais ricos no valor de 5 triliões de dólares, é obra. Ao todo, 86% de todos os bilionários estão mais ricos do que estavam há um ano.

Existem 20 pessoas que têm tanta riqueza como metade da população mundial. Este facto não pode ser considerado natural em nenhuma esfera social, seja ela ética, moral ou outra qualquer. Em Portugal 25 pessoas detêm 10% da riqueza total do país. Entretanto distribui-se medo pelas populações. Já o povo diz há muito tempo, o mal de uns é o bem de outros! Sempre houve a doença da grandeza e do poder. Já houve donos de quase toda a terra conhecida e o mal continua. Enquanto a consciência dos explorados não atingir o ponto de ruptura e a completa ausência de medo, os maníacos das grandes posses continuarão o seu caminho até sabe-se lá onde. Existem até suspeitas que em reuniões secretas dos grandes senhores do mundo se bebe sangue de crianças em ritual, continuações de rituais que vêm de outros tempos.

Para os donos do jogo não há crise, eles sabem bem o que se passa, são eles que a criam. A crise é um estado de alternância onde não há volta a dar ao mesmo ponto de partida. Quando as verdadeiras pessoas abrirem os olhos poderão ser bem aproveitadas para o caminho da sociedade do bem. A palavra crise em latim tem a mesma raíz de vento e de oportunidade positiva. No Capitalismo é apenas outro dos nomes que têm os negócios.

A Crise S.A. alimenta-se de vários mecanismos, desde os tecnocratas treinados em universidades especializadas, até à construção de paraísos fiscais, passando pela corrupção ou pela simples cunha.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Velhice


 

A velhice é a posição do nosso ponto vivente na linha do tempo. Aquele momento arrastante entre o nascimento e a morte, em que se está mais perto do fim do que do princípio. Uma das características dessa posição é a relação com as memórias, a cada segundo se colecionam mais e a cada minuto se tem a probabilidade de não recordar nenhuma. Não há saúde sem memória.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Que mundo este


 

Que mundo este em que estamos! a ideia que tínhamos de Ocidente, agora está em Tóquio; o Papa diz que nem toda a propriedade privada tem que ser respeitada e a Igreja só em Itália é proprietária de 22% dos imóveis e aqui em terras já poucos Lusas, somos dirigidos por ovelhas que pensam que são lobos de outras ovelhas e acusam os diferentes pensantes de ser inimigos sociais. Já não se governa por direito justo, natural e pensado, governa-se por decreto apressado nascido de estudos sem direito a contraditório. Que mundo este, que em vez de limpo e elegante, como aponta a etimologia da palavra, cada vez é mais imundo e absurdamente ordinário.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

B.I . político




Não sou verdadeiramente político, seguindo as bases etimológicas da palavra, dado que neste momento não habito numa cidade, a polis. Já nesses antigos tempos a política era para os homens da cidade, as mulheres, os escravos e quase todos os do campo, ficavam de fora. 

Eu ainda estou.

Podendo parecer nalgumas coisas, anarquista,  assim não me considero, perto deles tenho o meu ser libertário. 

Admirando alguns principios comunistas (ms muito mais, os comunitaristas), recuso qualquer ditadura, incluindo a de qualquer proletariado.

Já meditei, já sonhei e até já objectivei ser apátrida, mas influenciado por aquele gajo que nada pensava, chamado Fernando Pessoa, que dizia que a sua pátria era a  língua portuguesa, já me contentaria em ter um passaporte que me desse livre acesso aos palop, mas só tendo a certeza que os de lá também teriam livre acesso ao país da morcela com arroz e do bacalhau com todos.

Abrindo e aproximando ao tempo de agora, duvido cada vez mais da esquerda (principalmente da esquerda caviar) e cada vez mais de todas as direitas, principalmente aquelas que dizem, Chega! e o que querem é apenas tomar conta dos vários negócios , poderes e riquezas.

Quando escuto alguém dizer-se, esquerdista-cristão, social-cristão, ou até ultra radical de direita paulista ou mesmo liberal, mais não me resta do que rir de tanta tristeza das considerações.

Daquelas ideologias de casaco de cor diferente, mas todos comprados no mesmo alfaiate, sociais democracias, socialismos vários ditos democráticos, democracias cristãs e afins, tenho apenas uma palavra, sejam honestos e deixem-se de merdas!

Mesmo recusando a maior parte do ensinamento marxista, sigo esta divisa ‘De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades’. Acrescento a esta ideia, aquela outra de um meu avô, ‘’ netinho tenta ser feliz sem fazer mal a ninguém’’. Que mundo bom já seria só com estas duas.

Enfim, desde os nacionalismos vários de esquerda ou direita, até ao fascismo populista que agora reaparece, permanecerei apenas eu, livre pensador e capaz de morrer a qualquer momento por essa luta de liberdade de pensamento e de existência.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A esperança é remédio d’agora

A esperança é remédio d’agora 

Para chegar a amanhã

Sem rimas nem certezas 

No destino

Controlado

Do medo que anda lá fora


A sabedoria não é saber

mas também é remédio

de sempre


Neste sobreviver

Escondido

com a certeza de que ninguém ainda venceu a morte

Apenas a atrasou

Para amanhã


Só a alegria é láudano

Para esta tristeza ferrugenta

Que carrego


Aqui e agora