terça-feira, 15 de setembro de 2026

Metafísica Popular






Pode o sábio muito saber,
pode o forte ter valor;
se não sabe bem querer,
vale pouco o seu vigor.

Pode o génio ter razão,
pode o sábio ter saber;
se for má sua intenção,
mal fará com seu poder.

Pode o engenho dar valor,
pode a força ser capaz;
sem vontade para o amor,
até o bem  o mal faz.

Não é firmeza querer
ir em frente até ao fim;
é preciso compreender
se esse fim é bom ou ruim.

Pode o rico ter poder,
pode o pobre ter razão;
não importa o que se tem,
vale mais a intenção.

Ter saúde e ter fortuna,
ter a vida com proveito;
não faz boa criatura
quem não sabe andar direito.

Quem tem tudo quanto quer
pode ter felicidade;
mas é pobre sem saber
se lhe falta a bondade.

Não invejo a boa sorte
de quem vive sem bondade;
pode a vida dar-lhe o norte,
não lhe dá dignidade.

Nem talento nem riqueza,
nem coragem nem poder;
dão ao homem a grandeza
se for mau o seu querer.

Pode a sorte dar dinheiro,
dar saúde e posição;
não transforma um interesseiro
em pessoa de  boa intenção.

Pode o mundo dar-nos fama,
e depois a retirar;
boa vontade não se compra,
nem se pode negociar.

Quem só faz o bem por prémio
faz as contas ao que vem;
quem o faz porque é devido
acrescenta bem ao bem que já tem.

Entre os bens que há no mundo,
um só vale por si mesmo:
é querer o bem profundo,
sem proveito para si mesmo.

Não é ouro, não é fama,
nem vitória, nem poder;
é a vontade que nos chama
para o bem que há a fazer.

Vale pouco a inteligência
quando serve para o mal;
quanto maior a competência,
maior pode ser o mal.

Pode o homem ter riqueza
e julgar que tudo tem;
se lhe falta a gentileza,
falta-lhe o maior dos bens.

Pois o bem não vem da sorte,
nem da glória de vencer;
boa vontade é o norte
que dá rumo ao nosso ser.