Tínhamos acabado de almoçar. A mesa estava ainda ocupada pelos vestígios da refeição e por aquela espécie de lassidão pensativa que, por vezes, sucede às conversas prolongadas. O meu amigo, homem instruído, urbano, confortável nas suas opiniões e nas suas roupas, acendeu um cigarro com a lentidão de quem nunca precisou de calcular o preço exacto do dia seguinte. Ficámos calados uns instantes. Depois, como quem pega num objecto curioso, voltou-se para mim e disse:
— Continuas então nessa tua ideia de ser artivista?
Olhei para ele sem pressa.
— Continuo.
Sorriu.
— É curioso. Porque, vendo-te de fora, não se diria. Trabalhas com câmaras municipais, com festivais, com eventos, com turismo, com contratos. Fazes da rua palco, do espanto ofício, do corpo imagem. Não pareces propriamente um revolucionário. Pareces-me, quando muito, um profissional muito inventivo da sobrevivência.
— E que pensas tu que é, hoje, um revolucionário? Um homem que escreve frases acesas no telemóvel? Um comentador de raiva bem penteada? Um deputado de indignação administrada? Ou alguém que ainda arrisca o corpo para interromper, por breves instantes, a normalidade da cegueira?
Ele pousou o cigarro no cinzeiro e respondeu-me:
— Não compliques. O que te pergunto é simples. Em que sentido pode um homem que vive da arte pública, da performance e da contratação chamar-se artivista sem cair em contradição?
— No sentido exacto em que um homem pobre pode chamar-se livre sem deixar de ter contas para pagar: num sentido combatido, imperfeito, mas real.
— Isso é frase.
— Não. Frase seria dizer-te que a arte muda o mundo. Eu não digo isso. O mundo é demasiado pesado para ser mudado por uma estátua viva. Por mim. O que eu digo é mais modesto e, por isso mesmo, talvez mais verdadeiro: a arte pode revelar onde o mundo está podre.
Ele levantou ligeiramente as sobrancelhas.
— E tu revelas isso feito estátua?
— Às vezes, sim.
— Parece-me pouco.
— Porque nunca viste a pressa interrompida por um corpo absolutamente imóvel. Nunca viste a inquietação que nasce quando o ruído encontra alguém que não lhe responde. Nunca viste o desconforto de uma multidão perante uma presença que não vende, não sorri, não explica, não serve. A estátua viva, quando é séria, não é um ornamento. É um espelho hostil.
— Hostil?
— Sim. Porque obriga a olhar. E o nosso tempo aceita tudo, menos isso. Aceita sons, slogans, escândalos, demagogia, miséria televisiva, mentira eleitoral, patriotismos de plástico, indignações alugadas. Mas olhar é que quase ninguém quer.
Ele riu-se discretamente.
— Tu falas da tua arte como um sacerdote fala do altar.
— Talvez porque tu falas da política como um homem que já não espera nada dela.
— E tu esperas?
— Não dela. Das pessoas, ainda.
Fez-se uma pequena pausa. O ar da sala estava já espesso. Lá fora, por detrás da janela, a cidade continuava no seu movimento mecânico, com a sua mistura habitual de motores, cansaços e promessas por cumprir.
— Então diz-me — insistiu ele — que espécie de artivismo é o teu? De que lado estás afinal?
— Do lado de quem não explora.
— Isso é vago.
— Não é. Quero dizer: do lado de quem trabalha e não aparece, de quem paga e não decide, de quem sustenta e não brilha, de quem nasce mal situado e passa a vida inteira a ouvir que a culpa é sua. Do lado dos deserdados, dos mal nascidos, dos que não herdaram nem dinheiro nem linguagem de poder. Do lado dos que o sistema usa como tapete.
— E no entanto — observou ele — esses mesmos, muitas vezes, votam contra si próprios. Seguem demagogos, acreditam em mentiras, repetem slogans absurdos, entregam-se à extrema-direita com uma espécie de fúria ingénua. Como concilias tu essa tua fidelidade aos de baixo com o facto de muitos deles quererem, afinal, o chicote?
— Não querem o chicote. Querem sentido. E como os abandonaram, aceitam o veneno embrulhado em sentido falso.
— Isso parece-me benevolência.
— É lucidez. A extrema-direita não cresce porque o povo se tornou subitamente monstruoso. Cresce porque o abandono produz febres. Durante anos deixaram-se crescer o ressentimento, a humilhação, a exaustão, a sensação de que ninguém fala por quem realmente sustenta o país. E depois apareceu quem dissesse: “a culpa é deles”, “a culpa é dos outros”, “a culpa é de quem te substitui, de quem te invade, de quem te rouba, de quem não és tu”. É mentira, evidentemente. Mas a mentira, quando entra por uma ferida real, instala-se com facilidade.
— E a direita tradicional?
— Fez o que quase sempre faz a cobardia política: primeiro desprezou, depois relativizou, depois imitou. Julgou que podia usar o fogo para aquecer as mãos. Agora faz contas eleitorais com os fósforos. Não percebeu, ou fingiu não perceber, que quando a direita respeitável se cola à demagogia por interesse, deixa de haver direita respeitável e passa a haver apenas uma gradação de oportunismo.
— E a esquerda, já agora?
Suspirei.
— A esquerda teve, e ainda tem, a desculpa nobre de ter querido justiça. Mas demasiadas vezes esqueceu-se que a justiça começa na vida material de quem sofre. Foi-se sofisticando, subdividindo, teorizarando, moralizando, discursando — e, enquanto isso, muitos trabalhadores, muitos precários, muitos velhos, muitos pobres, muitas vidas esmagadas pela rendas, pelo preços, pelo impostos, pela humilhação silenciosa, deixaram de se sentir vistos. A esquerda quis, por vezes, salvar o mundo sem acompanhar o homem concreto ao centro de saúde, à fábrica, ao fim do mês, à exaustão.
— Estás a ser duro.
— Estou a ser justo. Um homem que fala em povo e não suporta o cheiro do povo está perdido. Um homem que defende os trabalhadores mas já não sabe o que é um corpo cansado está perdido. Um homem que usa os pobres como categoria mas não os reconhece como vizinhos está perdido.
Ele olhou demoradamente para o fundo do copo.
— E tu não estás perdido?
— Estou, como toda a gente está. Mas sei de onde falo. E isso faz diferença.
— Diz-me então de onde falas.
Inclinei-me um pouco para a frente.
— Falo de baixo. Falo de uma existência em que a arte não foi capricho, foi saída. Falo de uma vida em que o corpo não foi apenas expressão: foi ferramenta, disciplina, resistência, mercado, risco e sustento. Falo de uma condição em que o talento, sem estrutura, vale pouco; e a vocação, sem dinheiro, aprende cedo o preço do mundo. Falo de alguém que conheceu a rua não como metáfora mas como meio. Que percebeu, muito cedo, que há homens nascidos para mandar sem mérito e outros condenados a justificar até a própria dignidade. Que viu, em dezenas de países, que o luxo fala sempre a mesma língua e a pobreza também. Que descobriu que o cosmopolitismo dos pobres é mais verdadeiro que o dos ricos: os ricos viajam por conforto; os pobres viajam por necessidade, por trabalho, por fuga, por sobrevivência, por invenção.
Ele manteve-se calado. Continuei:
— Por isso, quando me ouço chamar artivista, não penso em bandeiras. Penso em não separar aquilo que em mim nunca esteve separado: a arte, a injustiça, o corpo, a fome, a visão, a rua, a política, o silêncio, o trabalho. O meu activismo não nasceu dos livros; os livros vieram depois. Nasceu da intuição de que a dignidade não pode ser decorativa. Nasceu da recusa em aceitar que o artista sirva apenas para entreter os vencedores.
— Mas entreténs.
— Às vezes. Tal como a verdade, por vezes, entra mascarada para não ser impedida à porta.
— E qual é então a tua política?
— Simples. Proteger o essencial e taxar o excesso. Desagravar o trabalho e taxar o luxo obsceno. Tornar leve o que é necessidade e pesado o que é arrogância. Água zero por cento. Jacto particular 90 por cento. Casa antes de especulação. Corpo antes de lucro. Produção real antes de circulação abstracta de dinheiro. Dignidade antes de estatística.
— Isso não é poesia. É programa.
— Melhor ainda. A poesia, quando é séria, aproxima-se sempre de um programa moral. E um programa moral, quando é verdadeiro, tem de saber falar como poesia para não morrer nas mãos dos técnicos.
Ele sorriu.
— Falas como quem já pensou demais.
— Penso porque tive de viver demais em circunstâncias que obrigam a pensar. O conforto simplifica. A necessidade complica. Quem nasceu no aperto ou enlouquece ou ganha lucidez. Às vezes ambas.
— E acreditas ainda em transformação?
— Acredito em deslocamentos. Transformação é palavra grande demais para uma só vida. Mas um homem pode deslocar o olhar de outro homem. Pode interromper-lhe a anestesia. Pode lembrá-lo, ainda que por segundos, de que não nasceu apenas para consumir, obedecer, repetir, votar com medo e morrer cansado. Pode sugerir-lhe que o silêncio existe. Que o corpo existe. Que a dignidade existe. Que o sistema não é natureza. Que o dinheiro não é Deus. Que a velocidade não é destino.
— Isso é muito para uma performance de rua.
— Não é mais do que se pede a um sermão, a um editorial, a um comício ou a um telejornal. A diferença é que eu, ao contrário desses, ponho o corpo inteiro no argumento.
Ele não respondeu logo. Levantou-se, foi até à janela, voltou.
— Sabes que mais? — disse. — Tu fazes-me pensar numa espécie de anarquista sem bomba.
— Antes assim. As bombas, hoje, são outras.
— Quais?
— A mentira repetida até parecer povo. A demagogia travestida de coragem. O cinismo fiscal que esmaga o trabalho e acarinha o excesso. A política reduzida a gestão de medos. A arte domesticada para ornamentar o desastre. Essas são as bombas modernas. Rebentam devagar, mas deixam ruínas mais duradouras.
— E tu, o que fazes contra elas?
— O que posso. À minha escala. Com o que tenho. Sem purezas ridículas e sem submissões fáceis. Faço imagens com o corpo. Faço silêncio no centro do ruído. Faço presença numa época de simulacros. Faço da resistência uma forma. Faço da quietude um argumento. Faço da minha origem pobre, não um ressentimento, mas um ponto de verdade, um ponto de partida.
Ele estendeu a mão para o maço do tabaco, hesitou, não tirou nenhum.
— Então, no fundo, continuas a acreditar na liberdade.
— Não. Continuo a merecê-la.
E levantámo-nos da mesa.
Sem comentários:
Enviar um comentário