segunda-feira, 30 de março de 2026

política

 Se hoje olharmos para a política portuguesa com um mínimo de lucidez, e até para muita da política mundial, veremos que o problema já não é apenas de regimes ou de ideologias, mas de desvio — um desvio profundo entre o país real e o país representado. À superfície, tudo parece movimento: debates, escândalos, discursos inflamados, promessas de mudança. No fundo, porém, há uma estranha estagnação, como se a energia que circula fosse apenas ruído, incapaz de produzir verdadeira transformação.

A recente subida da extrema-direita não nasceu do nada, nem é um acidente. Alimenta-se de um terreno preparado durante anos: desconfiança, abandono, ressentimento. Mas cresce, sobretudo, porque encontrou um instrumento eficaz — a simplificação brutal da realidade. Fake news, slogans fáceis, inimigos inventados ou ampliados. Não importa a verdade; importa a eficácia emocional. E quando a política passa a ser conduzida pela emoção mais primária, deixa de construir e passa apenas a explorar.
O mais inquietante, porém, não é a existência dessa força, mas a forma como a direita tradicional, em vez de a enfrentar com clareza e responsabilidade, a ela se cola, por cálculo, por medo de perder espaço, por ambição de poder. Ao fazê-lo, não só legitima aquilo que antes deveria combater, como abdica de qualquer posição estruturante. Deixa de haver direita — passa a haver uma gradação de oportunismos.
Do outro lado, a esquerda, que historicamente se afirmou como voz dos que não tinham voz, parece ter perdido contacto com aqueles que mais dela precisam. Ocupa-se de discursos, de causas fragmentadas, de debates internos, enquanto muitos dos deserdados, dos mal nascidos, dos trabalhadores que sustentam o país, deixaram de se sentir representados. Não porque tenham deixado de precisar, mas porque deixaram de ser ouvidos.
E assim se cria o vazio. Um vazio perigoso, onde quem grita mais alto substitui quem pensa melhor, onde quem acusa vence quem trabalha, onde a política deixa de ser um espaço de construção colectiva para se tornar um campo de manipulação.
Mas há um ponto ainda mais fundo, raramente dito com clareza: a injustiça estrutural sobre o trabalho. Taxa-se quem produz, quem sua, quem constrói — e alivia-se quem acumula, quem especula, quem consome luxo como se fosse necessidade. É aqui que a política revela, sem máscaras, a sua inversão moral.
Uma sociedade equilibrada faria o contrário. Taxaria em função da necessidade. Tornaria o essencial acessível e o supérfluo dispendioso. Água a zero por cento, jacto particular a 99%. Trabalho digno protegido, não esmagado. Todo o luxo extremo, o excesso inútil —a suportar o peso que lhe corresponde, não simbólico, mas real. Não por inveja, mas por justiça.
Sem esta inversão, tudo o resto são cócegas. Porque enquanto o trabalho for penalizado e o excesso premiado, não há discurso político que corrija o desequilíbrio, não há lados da bancada que desejem justiça.
O problema, portanto, não está apenas na ascensão de um lado ou na queda de outro. Está na ruptura de equilíbrio. Numa sociedade onde as forças que deveriam corrigir e equilibrar se afastam da sua função, o resultado não pode ser outro senão o agravamento da própria decadência.
E, no entanto, a solução não virá de mais ruído. Não virá de mais promessas vazias, nem de mais guerras de palavras. Virá, se vier, de um reencontro com a realidade — com as pessoas concretas, com as vidas que não cabem em discursos, com o país que existe para além das narrativas, dos programas eleitorais e das ambições de poder.
Porque enquanto a política não fizer com que a justiça volte a estar ao lado de quem trabalha, de quem luta, de quem resiste em silêncio, continuará a ser apenas isso: uma brincadeira de mau gosto. E nas brincadeiras de mau gosto, como sabemos, a verdade que fica é apenas o dano que o mau gosto causou.
Criar danos não é governar. É apenas disputar o poder sobre o vazio, sobre a dor de cada explorado, de cada manipulado, de cada trabalhador.


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