terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Botas cardadas sobre livros

Botas cardadas caminham

sobre livros

regados 

com gasolina


Muitas mãos 

acendem já o fogo


Primeiro roubar-nos-ão 

as palavras

as ideias

depois


E no fim

livrar-se-ão 

de todos

os não formatados


Eles andam aí




domingo, 11 de outubro de 2020

Superação

Sinto outra vez a quietude

a empurrar-me na vertical

de todas  os movimentos para continuar vivo

por entre a vicissitude

deste tempo coercivo

sem atitude


Faço da vida arte e da arte luta

preferindo a dor forte de um dia

às dores sempre a moer

no tempo  da labuta 

e no esforço resolver

a depressão absoluta


Pensamentos na horizontal

da vida que cai a pique, agarro a música que passa

embalo  no ritmo e preparo-me

para o choque frontal

indago-me

é natural




terça-feira, 17 de setembro de 2019

Desilusão2.019

Mudas o tamanho da letra

 para poderes escrever melhor

E começas a escrever

A velhice não perdoa e não é só na vista

A tesão pode ser a mesma

Mas a mecânica corporal reage com frequências mais longas

Cada maleita traz outra atrás

Se não tens seguro tás fodido

Se és sem abrigo, estás nas mãos do acaso

Ou de Deus (há ainda essa doença)


e por estas e por outras que daqui nascem

És abandonado

Como se nunca nada te tenham prometido

Porque tudo tem desculpa

perdão é que não pode ter


Mas o que interessa é conseguires ser

No mínimo aquele que eras antes

Porque o que fores a mais

Pode ser contaminação 

Do sonho que viveste

a pensar que era real

Vai o mundo de  mal a mal

O respeito agora é retórica

E o amor está contaminado com paixão 

cheia de  vida própria

Sem nada de concreto na direcção


Que se foda 

Prepara-te para outra 

mesmo adivinhando

Que te poderá acontecer uma repetição 

Bem parecida

De belo sorriso

Como aquelas que já passaram


Desilusão2.019 hãToino de Lírio

in ''Poesia com azia''

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Tempo do Cansaço

Assim como não há Caminho sem obstáculos, não há Caminhada sem Cansaço. Por vezes tenho que arriscar a vida para seguir o meu querer. Aqui e agora é útil não falar muito e utilizar a tranquilidade para estabilizar a força que me falta. Não está longe o momento em que alcançarei a nascente de outras águas puras, com as quais recuperarei todas as energias que agora não tenho. Escondida em qualquer recanto da minha tristeza, deverei guardar um pedacinho de alegria, que me aguentará até chegar à nascente.
No meu interior, mesmo diante deste momento, existe um poço que me atrai para as forças mais obscuras da existência. Deverei manter o alerta para não esquecer que o poço apenas servirá para me matar a sede e não afogar-me até à morte. 
A causa imediata desta angústia sofrimento foi a minha teimosa crença na beleza; tanto contemplei a princesa do meu amor que me fui esquecendo que só contemplando as diferenças entre os humanos, poderei organizar o meu mundo no mundo dos outros.
Posso e devo fazer muitas coisas apesar das maleitas vindas de trás, somadas ao choque que agora sofri. Valha-me o Poder que sinto, mais forte do que qualquer possível bruxaria antiga ou de agora, que me tenham lançado.
São as pessoas inferiores que limitam e oprimem as pessoas superiores. Mesmo os caciques, déspotas e ditadores, só limitam e oprimem os povos, utilizando como cães de guarda os seres mais inferiores desses povos. É pois falsa a acusação de que fui alvo, eu nunca limitei ou oprimi alguém, no máximo poderei ter sido demasiado cuidador ( mesmo agora estou a cuidar da minha dor).
Mais uma vez amar alguém sem reservas me conduziu a esta parte do meu destino onde reina a mágoa. Entretanto se permanecer fiel a mim mesmo, não haverá escuridão nem melancolia, que me arrastem para caminhos sem esperança.
Vai doer mais e mais tempo, contudo são as dores os alarmes de segurança dos seres vivos. Se me não doesse a morte da minha querida mãe há um mês atrás, somada à  dor do choque do auto-afastamento da minha princesa, se nada me doesse, escrevia eu, aí sim estaria já morto.
Apetece-me partir, deixar para trás tudo o que construí com amor a pensar numa vida a dois, mas não o devo fazer, estou doente e impreparado.
Acabou-se o tempo de encontrar a minha princesa, ela decidiu partir de mim. No vazio dela que dentro de mim ficou, jaz agora bem morto, o princês, que ela em mim tinha construído com a sua bela voz e sorriso.
Filho, quanto mais te doer, mais deves levantar a cabeça! frase sábia da pessoa simples que é o meu pai.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Abaixo o PIB, viva o FIB

Desculpai-me senhores do poder, mas quando me impõem que tenho que fazer isto e aquilo para aumentar o PIB da nação, aquilo em que cada um de vocês pensa e deseja é no vosso FIB ( felicidade interna bruta). Aumentar o PIB é uma desculpa para serem mais felizes, à conta da infelicidade de quem vos põe no poleiro e depois vos paga as contas.
Abaixo o PIB, viva o FIB, mas não só o vosso. Eu e todos os outros também somos gente.


domingo, 8 de abril de 2018

Era um vez um menino

Era uma vez um menino, baptizaram-no António. Foi um daqueles nascidos com poucos direitos práticos de alterar o rumo do seu destino, Ricardo Reis chamar-lhe-ia, um deserdado da sorte.
Nos primeiros anos de vida sofreu na pele e nos sentimentos as ''maravilhas'' fascistas da realidade: duas irmãs mortas por falta de assistência médica devido à pobreza da família, pai a ter que ir procurar mudar de vida além fronteiras, clandestino a salto como era  norma, muita solidão e calos desde cedo. Sempre teve dúvidas da existência de um Deus Bom, embora o tivesse procurado em algumas preces e orações.
Entre a rega do milho e do feijão, da escola primária, da apanha da lenha para a fogueira  e de muitos sonhos desejos, foi aprendendo a meditar, embalado por um desejo de um dia conseguir sair de si e daquela vida sem ser preciso ser a fugir. Entre várias dores, as mais fortes eram as provocadas pelas lágrimas da mãe, quando passavam noites escondidos das  alcoólicas inconsciências violentas do pai.
Aos dez anos matriculou-se no ciclo preparatório, aos doze no oitavo unificado, aos dezoito num curso superior da Universidade de Coimbra. A sua meditação mostrava-lhe agora a distância que ía da certeza dos calos, causados nas mãos pelas enxadas e pelos machados, até às certezas de papagaio da maior parte dos Professores Doutores que lhe iam passando no caminho. Foi um período de construção de ilusões e o seu correspondente tempo de avalanches de desilusões. A cabeça começou a dar sinais de não aguentar, salvavam-no de tempos a tempos uns trocos para a farmácia.
Quando, num dia de aniversário, alguém lhe disse que agora era maior e vacinado, sorriu triste, como que escondesse num silêncio cheio de ânsias, a certeza que nada mudava naquele momento. Já tomava conta da sua vida bem antes da legalidade temporária da idade. Uns anos antes, ao ler ''Os Esteiros'' logo se identificou com ''aqueles homens que nunca foram meninos''.
Naquele período Universitário, continuou a trabalhar para sobreviver: vendeu livros porta a porta, foi cozinheiro numa républika de estudantes e foi administrativo no Hospital da Universidade de Coimbra. O seu mundo continuava cercado por duas fronteiras principais; a falta constante de dinheiro e a estupidez maldosa envolvente.
Chegou a sentir-se anarquista, mas alguns profetas dessa forma política, cedo o fizeram sentir mais Libertário que outra coisa qualquer. Os comunistas tentaram várias vezes arrebanhá-lo, mas o medo da ditadura deste povo, sempre lhe disse para não ir na conversa. Socialistas, sociais democratas e democratas ditos cristãos, apenas considerava colectores de impostos e especialistas em chico espertismo corruptivo, que lhes ía enchendo os bolsos à conta do povo sempre à beira da desgraça. Entre os valores de uns e de outros, apenas discernia a baça luz da hipocrisia, facilmente perceptível nos discursos de promessas eleitorais e no seu não cumprimento consecutivo.
A sua luta mais pessoal era não enlouquecer, afogado na neuro-economia dos restos e das incertezas estomacais, preços que pagava por não alinhar em nenhum rebanho e por gritar ' Não me fodam o juízo' com mais convicção do que qualquer padre a dizer  missa.
Abandonou a Universidade tendo apenas aprendido que  aprender é querer aprender, procurando continuamente o conhecimento das coisas, desde a sujidade nas unhas, até ao pó das estrelas iniciais. Talvez tenha ainda aprendido que ensinar devia ser mais instruir do que educar, devia ser mais dar as ferramentas para uma vida melhor, do que replicar as bafientas sabedorias dos Catedráticos. Neste abandono da Universidade já era plenamente consciente de que a vida é feita de vontades e das suas práticas. Neste período trocou um suicídio por uma viagem até França, trocou um namoro com uma mulher linda e boa pessoa, por uma aventura, trocou um emprego por uma exposição itinerante do seu corpo imóvel. Iniciou nesse momento uma nova abordagem artística, que misturava revolta com quietude, que misturava força com uma procura mais profunda de si mesmo.
E por aí foi continuando, mostrou-se em muitos países, tentando que vissem na exposição da sua quietude, que não é preciso correr para conseguir chegar, que não é preciso explorar para possuir, que não é preciso humilhar para superiorizar, que não é preciso matar para não morrer, que não é preciso proibir para regular, que não é preciso enganar para negociar, que não é preciso estupidificar para governar, que não é preciso dividir para reinar. Aquele homem-estátua, acabado de nascer, apenas se mostrando na sua quietude, tinha a esperança que cada pessoa que parasse a olhá-lo, reparasse também na sua própria quietude e nesse momento se interrogasse quem afinal era e o que andava mesmo a fazer na sua vida.
Era uma vez um menino que agora sou eu. Neste aqui e agora eterno a felicidade continua mais virtual do que real. Continuo a não fazer parte activa de qualquer maioria ou minoria. Aproximo-me vertiginosamente da ideia de que tudo está ligado e que existimos desde o principio de tudo e existiremos até ao fim de tudo. Em tempos idos cheguei a dizer que se algum dia me conseguisse alimentar de luz, mudaria de cor. Acrescento agora, que  no dia em que conseguir parar o pensamento, transmutarei de Ser.

hâToino de Lírio
Janeiro de 1999, Lisboa

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Ordem/Desordens



foto captada durante uma performance minha na Culturgest, integrada numa exposição de Bruno Pacheco
A ordem nada mais poderá ser que a soma de todas as desordens. Nas minhas aparições públicas como estátua viva, tenho este postulado em mente, ao tentar mostrar a quietude física voluntária como a soma de todos os movimentos... 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mutação contínua

Tudo existe neste aqui e agora, que se seguiu àquele ali
e imediatamente antes, e se vai transformando naquele
acolá e imediatamente a seguir, sem nunca dar pela passagem.
Alguns orientais representam-no muito bem naquela bolinha
meio preta, meio branca, em que cada parte branca se vai
transformando em preta e cada parte preta se vai transformando em branca.
Ainda por cima, cada parte levando dentro um pouco do seu contrário.
Branco, preto. Vazio, cheio. Yn, Yang.
A dualidade de tudo. Tao. Tei gi.
Tão simples, tão total.
hãToino de Lírio, in ‘Monólogos para consumo imediato’

domingo, 1 de novembro de 2015

Do lado de dentro da pele

É com a tranquilidade da quietude que mais me mostro aos outros. E, a cada momento dessas exposições públicas do meu quieto ser, pouco do que mostro, me dá verdadeiramente a conhecer. Esse outro eu, está do lado de dentro da pele. Está para além do nirvana visual que apresento, inteiramente vivo e atento a tudo em seu redor.
Em plena quietude é que entendo por inteiro a velocidade da vida.

Se a isso juntasse a noção do dever cumprido e fé em deus, daria um bom apóstolo ou mesmo profeta.

sábado, 31 de outubro de 2015

Os outros eus

Nenhum outro consegue decifrar cada um por completo. Nem cada um de nós tem acesso

à totalidade de si. A consciência é apenas a casca da inconsciência, esse miolo celeste

que suporta a nossa existência e que partirá para outra quando muito bem entender.

A minha suspeita é que nesse miolo existe pó de estrelas misturado com desejo de ser.

hãToino de Lírio, in ‘Monólogos para consumo imediato’